O segundo encontro

No último domingo de Fevereiro, o grupo reuniu-se na Fábrica Braço de Prata. Durante a manhã, cada um contou, com palavras e com música, quem era, de onde vinha.

Danylo

O Danylo canta com os olhos fechados. Todos os outros olhos estão postos nele, menos os meus, que acabo de entrar na sala, e os da Aixa, que me faz sinal para que veja a mensagem que me enviou.

Eu e a Aixa estamos no círculo, mas estamos ao mesmo tempo lá fora. A comida do almoço já chegou? Onde estão as taças para a sobremesa? Quem falta assinar a declaração? Já chegou o teu passe de comboio? 

O Danylo, enquanto isso, é sugado pelas cordas do seu instrumento para um universo só dele, onde não há almoços nem horários nem reembolsos. Um não lugar no não tempo, um todo o lado em todas as horas.

Os músicos do círculo são sugados com ele. Se desviam os olhos, desintegram-se. 

Imagens: Carlos Andrés Lopez

Leon

O Leon cria algo novo com o que lhe é familiar. Não vai pelos caminhos mais óbvios.

Com o seu macacão azul, as pontas do bigode cuidadosamente curvadas para cima, e a parafernália de som à sua volta, transforma-se no arquétipo do cientista num universo sci-fi, para onde nos transporta.

O loop são os líquidos coloridos a escorrer pelos tubos do laboratório, a melodia são bolhas a crescer e a flutuar pela sala. As colcheias percutidas são faíscas que volta e meia ameaçam uma interação química perigosa, fatal, que nunca se concretiza. A consistência do ar começa a alterar-se. A sala tem um cheiro doce.

Cada corpo reage aos químicos como bem entende. Algo em cada um de nós vai-se libertando, mas é uma liberdade violenta.

Demba

A voz do Demba vem do fundo da terra. A falar, enraíza-se. A cantar, ganha asas. O balafon é uma extensão do seu corpo, liga-o à sua aldeia, aos seus avós. O Demba sempre sonhou com instrumentos, e começou a construir esses sonhos.

Não havia caminho para ele que não passasse pela música. Já estava traçado antes de ele nascer.

Na sua aldeia, os músicos iam aos casamentos sem convite, sem cachet, contribuir para a felicidade alheia.

“Mas agora é outro tipo de mundo”, suspira.


Jam da tarde

O momento da afinação pré-jam é a jam em si. É o quebra-gelo, a conversa de elevador.

Olá, tudo bem? Como te chamas? Que notas te fazem?

Apalpar terreno para descobrir sobre o que poderão falar.

Ninguém precisa dizer 'estamos prontos' - quando se dão conta, o gelo já derreteu.

Atravessar o estrangeiro, revisited

A partir de um texto da Matilde Real*, atravessado pela jam e as suas várias camadas

Para atravessar o estrangeiro é preciso deitar fora todas as bússolas, todos os mapas, todas as roupas. Levar apenas uma caixa de chocolates ou um livro numa língua que ninguém conhece. Deixar-se atravessar pelo estrangeiro.

Dizer que sim, dizer que sim, dizer que sim.

É preciso uma certa confiança na sede. Haverá medo. É preciso crer os deuses, os monstros e os estranhos, enquanto o Fazel mimica os rodopios da poeira, a Catarina é o vento, são todos deuses que tocam djembé, andam de autocarro, são todos monstros nas redes sociais, todos iguais, o vento acalma, a poeira desce, deixamo-nos assombrar pelos estranhos até sermos estranhos por dentro.

Mas já não somos tão estranhos assim.

Demba, Amanda , Filipe, Marinho, Fazel, Maria, Aixa, Carlos, Lilly, Marketa, Catarina, Leon, olhamo-nos.

Atravessamos juntos o estrangeiro, a Catarina já chegou e faz sinais de fumo, o Fazel corre corre corre, a Catarina do outro lado anuncia perigos e glórias, o vento morre, a poeira assenta. 

Silêncio. 

Vamos?

Últimas considerações

Construir comunidades leva tempo, dá trabalho. É preciso atravessar o silêncio, o constrangimento. Mas não esquecer a felicidade, que é o combustível para atravessá-los.

Alguns sentem que levaram mais tempo a afinar-se com o grupo. Mas tal como nas jams, a afinação faz parte da música. Cada instrumento tem um tempo diferente. Os que são mais rápidos têm para com os restantes a responsabilidade de saber esperar.

Estas pessoas, este espaço, este tempo.

* "Atravessar o estrangeiro" (2021), criado para o espetáculo BOWING, dirigido por Madalena Victorino, produção Lavrar o Mar.





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